
De passagem por um posto de gasolina em Boa Viagem, corro em direção à lojinha de conveniência para reabastecer meu quase findado estoque de cigarro. Da vitrine avistava um cartaz de promoção de chocolate alpino. Uma coca-cola a mais no débito não iria fazer diferença na fatura. E assim a lista de necessidade inútil e compras por impulso cresce em proporção inversa ao número de passos necessários até chegar à porta. No caminho, passo por dois jovens de camisa pólo tomando Heineken no capô de um Honda Civic, um segurança e um outro rapaz, este com vestes bem mais humildes, sentado em frente à loja. Ignoro todos. Verdade aristotélica número 1: ninguém faz amizade bebendo leite. Dito! Número 2: novas relações não são estabelecidas às onze da noite no posto Shell da beira canal. Feito!
Na saída, o rapaz que estava sentado me pede umas “pratinhas”. Reviro o bolso, sacudo um punhado sortido de cinco a vinte cinto centavos em sua mão e continuo andando. Sinto que ele quer justificar o porquê de estar ali, àquela hora, pedindo. “Não sou do imposto de renda, fica frio”. Ele sorri e recua. Acendo meu Marlboro já perto do carro. Ele volta! Sempre tem um mais exaltado que, vendo-o só, gosta de contar os causos da vida e lhe fazer comiserar. É de praxe. Nesse momento estava pronto para o sermão-não-sou-ladrão-mais-poderia-sê-lo quando sou surpreendido por um fato inédito. “Doutor, desculpa o incômodo. Eu só queria juntar uma grana para ir para Limoeiro, onde moro. Sou ex-detento do Aníbal”. Minha cabeça volta à procura do segurança. “Fiquei lá por nove anos. Homicídio”.
Ele não parece ser tão perigoso. Eu poderia batê-lo julgando pela aparência franzina. Foi vingança pela morte da mãe. Entendi da seguinte forma: ele bancou o Anakin Skywalker, foi atrás do mal feitor e acabou se juntando ao lado mal da força. Do crime, não se arrepende. No entanto, quer começar uma vida nova. Horas após a soltura seu maior desejo é reencontrar o filho “Calhyan” de 3 anos, fruto de uma visita conjugal no presídio. Afirma que o Aníbal foi uma escola cujo ensinamento jamais esquecerá. O futuro lhe reserva um emprego de carregador em uma empresa lá em Limoeiro. Ofereço um cigarro o qual recusa com modos. “Depois dessas chuvas, peguei um princípio de pneumonia. Dormia no chão”. Dois, quatro, cinco reais… Completo a “prata” que lhe falta. Ainda estica um pouco mais o papo pra falar do Santa-Cruz, mas se apressa ao ver a hora. Vai perder o último ônibus. “Se passar por Limoeiro, já sabe! Procure por mim… Márcio”. Anotado.

